domingo, 23 de novembro de 2008

A caixa


Entrei no quarto.
No meu quarto.
Aquele quarto, que eu tinha passado tanto tempo lendo antigos livros, escrito tantas cartas na velha máquina de escrever, cartas que nunca foram enviadas, escutado discos na linda vitrola que ganhei da vovó.
Tive saudades daquele quarto: de sua torta fileira de livros, a sua péssima pintura, da bonequinha pendurada na janela.
A lembrança recente de papai, mamãe e minha irmã me esperando no aeroporto ainda dançavam de frente aos meus olhos.
Tanto tempo longe.
Abri a primeira porta do armário e vi aquela caixa de papelão que há tanto tempo atrás havia decidido guardar as mais alegres e tristes lembranças: cartas que recebi, cartas que escrevi e voltaram para minhas mãos, revistas de antigos ídolos do cinema, caixas de incenso...
Todo aquele passado tão agora presente.
- Minha filha, saia logo desse quarto e venha comer bolo de milho – grita minha prima da porta. – Seu amiguinho inglês está se empanturrando de milho, tô vendo a hora dele passar mal. Na Inglaterra não tem milho assado não é?
O sorriso abriu-se em minha face.
- Já já estou indo.
- Pois venha logo querida. Esperamos 5 anos para você voltar, e você só está aqui por 5 dias.
- Claro.

Olhei novamente para a caixa. Ela estava ali fazia 10 anos. Somando as lembranças da caixa com o tempo em que ela passou guardada eram quase 20 anos.
- Eu não sei por que eu ainda tenho esperanças de devolver essas memórias.
E assim, peguei a pequena caixa de papelão, e joguei na fogueira que papai montara para o feriado de São João.
- O que é isso? – perguntou meu pai curioso.
- Lembranças.
- De quem?
- Não sei. Não mais a conheço.


Bruna

Escutando: A bad dream - Keane
Foto: A BOX by ~HannahHavoc (Deviantart)

7 comentários:

Anônimo disse...

sem palavras...
simplismente sensacional.

maria flor. disse...

lembranças.
boas ou ruins temos.


boa semana
amo
se cuida
bjão
saudade

Yaas disse...

lembranças...
nunca as jogarei nas labaredas. Elas sempre teram um grande poder sobre mim.

Anônimo disse...

Lindo! Nossa gostei muito.
Sou cheia de lembranças que parecem não serem minhas, não são parte do que hoje eu sou, do que eu me tornei.
É como se muitas de mim compartilhassem de um emsmo corpo em epocas diferentes

Jéssica Trabuco disse...

As vezes tem certas caixas cheias de lembranças na nossa vida que precisamos jogar fora para o nosso próprio bem.

Seus textos são ótimos! =)

(www.musicapoesiaeblablabla.wordpress.com)

João Vitor disse...

nossa. isso foi uma crítica?
eu me inspirei sim, mas acho que não cheguei a copiar.
puts ;x

Ana Luísa e Sarah disse...

Olá!
procurando por receitas de torta de morango no google acabei achando seu blog, amei o texto sobre torta de morangos, e gostei de muitos outros.

abraços!
sarah