quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A vontade de sair.

O que fazer
Quando sua casa não é mais seu lar?
O que fazer
Quanto tu sentes mais pra lá que cá?
Quando tua vida não é mais a mesma,
Quando tua vida não é mais aqui.

Como saber
Que caminho eu tenho que seguir?
Mas tenho medo de cair ali
Ou me perder e não saber sair...

E o coração se torna um nó só
E as raízes vão tornando pó.
E num instante você entende,
Que nada mais na cidade te prende,
Que nada mais pra ti pertence...

Ou é você que nunca pertenceu?

domingo, 3 de junho de 2012

Parar.

Decidiu tentar parar. Tinha que parar. Depois do turbilhão de coisas, o turbilhão de pensamentos que surgia na última semana, precisava parar. Aquilo estava mais complicado do que imaginara. Eram contradições dentro de si. Queria estar sozinha no início do dia e braços no fim da noite. Queria a bebida gelada, mas preferia o reconforto do calor na língua. Queria a cama vazia, mas a presença de alguém por alguns segundos, minutos, horas. Quem sabe dias. Queria o sol esquentando o lençol, mas diante da melancolia do coração, a luz prata da lua era melhor. Aqueles dias cansaram, cansaram tanto que a mente não conseguia pensar em mais nada. Da boca só saiam coisas sem sentido. Dos olhos, lágrimas que junto d'água corriam para o ralo. Deitou-se na cama e pensou: tenho que parar. E assim parou.

Morena.

Reconfortou seu corpo nos braços dele.

- Você é perfeita para abraçar.

Ele passou a mão em suas costas nuas e alisou a pele morena. Ela sentiu arrepiar-se e riu. Estava segura, como nunca mais havia sentido. Apertou-se em seus braços, fazendo seus seios tocarem o peito dele. Não queria soltar. Só sentir ainda mais aquela impossibilidade. Era errado. Sabia. Era errado. Mas por que se se sentia tão bem?

- Você está bem, minha linda?
- Sim, obrigada.

Beijou-o. Beijou-o como se fosse seu primeiro beijo, como se pudesse aprender mais com ele. Alisou seu rosto. Ele era perfeito. Apaixonou-se imediatamente. Talvez pelo perigo, talvez pela idade, mas ele a fascinava. Deitaram-se. Ela em seu peito. E passaram o resto de suas horas falando sobre a vida que nunca poderiam ter. O momento que nunca existira. A imaginação que nunca sairia de sua mente.

Março, 2012.

sábado, 31 de março de 2012

Cello et café.

Ela pode sentir as mãos dele acompanhar o cello em suas costas quase nuas.

- De fato, essa banda é muito boa.
- Eu disse.

E sorriu. Não. Aquilo talvez não fosse apropriado. Mas sentia falta de uma cama e uma companhia. E sentir a música invadir seu corpo, naquela melancolia que só o violoncelo conseguia trazer, foi um tanto prazeroso.

- "Never cared for what they say..."
- "And nothing else matters..."

Beijo-a profundamente. Aquele beijo não significava nada. Mas acalentava. Acalentava a alma bagunçada e desorientada. Que só queria um momento de ... de ... de solidão conjunta, talvez.

- Acho que os cookies estão prontos. Está sentindo?

Ele sentia o cheiro de biscoitos saindo do forno.

- Só se for com café.

E ao café estar nas enormes canecas e os biscoitos em uma pequena tigela, voltaram para a cama e conversaram as pequenas coisas da vida que os reuniram ali.




Ouvindo: One - Apocalyptica plays Metallica

domingo, 25 de março de 2012

Coffee makes everything better

E aí ela deitou na cama, agarrando seu tigre de pelúcia, repetindo a si mesma que estava tudo bem. Estava tudo bem. Ela tinha livro para ler até quarta e uma prova em dois dias. Mas estava tudo bem. Mas o domingo dizia não estar nada bem. Ou seus hormônios. Ou a barra de chocolate que ela comeu em 30 minutos. Ou a Zooey Deschanel cantando em seus ouvidos. Estava tudo tão estranho. Tudo parecendo tão distante. E ao mesmo tempo, ela sentia uma felicidade da solidão que nunca mais tinha sentido. Queria tomar aquele café e conversar as besteiras da vida. Ouvir seus discos na vitrola e pular sozinha na cama. Ah. Tá tudo bem, querida. Só é tomar uma xícara de café na segunda pela manhã que tudo vai ficar bem.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Foi quando meu pai me disse: Filha...

Mexeu com a colher o pó laranja no copo d’água. A dor e a queimação na barriga deveriam melhorar com aquela mistura. Eram suas últimas duas semanas de férias, e nos últimos dois dias, tinha saído uma vez com seus amigos de faculdade e na noite posterior com seus pais, e o sentimento era de que naqueles dois dias tinha saído mais que durante todas as suas férias, que já duravam quase um mês. Iria sair com seu namorado, tomar um café e assistir o filme nacional em exibição. Mas seu pai reclamara que ela estava saindo demais. Estava cansada com aquela conversa. Não entendia a razão para toda aquela ladainha de chegar cedo e não deixa-la sair durante suas férias, além de querer controlar o tempo na internet. Não era ‘protecionismo’, não parecia. Tinha dezenove anos e no fim do ano completaria vinte. A carteira de motorista já estava na carteira vermelha, mesmo não tendo toda a confiança no volante. Perguntava-se quando seus pais a deixariam sair para tomar um sorvete na praia com o carro. Tinha vontade de gritar, de falar tudo. De dizer o quanto aquilo a irritava. De mostrar o quanto ela estudava, o quanto ela ficava calada para tanta coisa só para não arranjar confusão, e seu pai não tentava nem ao menos tentar entende-la. Quantas vezes ele falou coisas que a magoaram. Sabia que não era a filha perfeita, muito menos quase perfeita. Bebia, moderadamente, mas bebia. Fumava raramente. Assistia vídeos pornôs quando dava na telha. Não ia com a cara de muita gente de sua família. Não fingia gostar das pessoas, e simplesmente fechava a cara quando não estava com paciência. Antes ser antipática que falsa, pensava. Achava que estava certa em tudo, mas admitia seus erros. Gostava de músicas finlandesas, daquelas deprimentes. Gostava de cozinhar quando estava mal, porque a comida sempre a fazia bem. Não era a filha que gostava de filmes emocionantes, mas aquela que gostava de ficções científicas. E não se importava em falar palavrões de vez em quando. Achava que às vezes, seus pais odiavam suas atitudes. E não eram muito chegados às suas artes, quando não foram para a apresentação de poesias onde ela declamou um poema de Álvares de Azevedo e sua amiga declamara o poema bizarro que ela mesma tinha escrito. Nem tenham valorizado a vontade que ela tinha em aprender violino, violoncelo e piano quando tinha apenas cinco anos de idade. Sabia não ser a filha perfeita. Mas fazia o que sempre estava ao seu alcance. Era formada em inglês e em francês, e estudava uma língua nórdica sozinha em casa. Teve boas notas na escola e isso continuou até a faculdade. Era carinhosa com alguns de seus familiares, aqueles que ela sentia que sentiam uma afeição maior por ela, e perguntavam como ela estava. Porque às vezes, amigos se preocupam mais com a gente do que os laços de sangue. Gostava de limpeza, mas sabia que seus pais não valorizavam tanto isso.

No fim das contas, ela só queria sair um pouco mais, quando sabia que ela mesma se fechava para o mundo.


d--b - Intuition - Feist

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sorvete de Blueberry

Enquanto o ônibus não chegava, leu mais um capítulo do livro e quase perdeu o ônibus que vinha com velocidade. Já que não conseguia ler em veículos em movimento, ouviu The Arcade Fire no mp4 num volume não tão alto. Observou o céu escuro de um lado e o sol se pondo de outro. Ia chover, e esperava que isso não atrapalhasse o encontro com os amigos da faculdade que em semanas não via. Uma amiga do colégio entrou no ônibus e todo o caminho foi relembrando os momentos que já passaram e as fofocas novas das pessoas. Despediu-se e logo chegou no McDonald’s e viu seus amigos na área externa. Sorriu. Adorava sair em dias nublados para jogar conversa fora. O plano inicial era tomar café, mas o Rei do Mate estava fechado. Contentou-se com o sanduíche da promoção, batata frita e meio litro de coca-cola. Contou o sonho onde transara com o cantor Otto em sua casa de taipa. Saíram da área externa quando sentiram as gotas da chuva molharem a mesa. E continuaram suas conversas que depois foram adocicadas com um sorvete de blueberry. Logo foi pro ponto de ônibus. Minutos depois que entrou no ônibus, a chuva caiu torrencialmente. Observou o garotinho desenhar no vidro. Ofereceu seus braços para os livros do rapaz que estava em pé. Achou que era um dos alunos africanos da universidade federal. Observou também a calça jeans da mulher que parecia que ia estourar, de tão apertada que se encontrava. Perto de casa, abriu o guarda-chuva e caminhou sentindo o vento frio do inverno nos braços nus. Tomou um banho quente, colocou uma camisa grande que servia de pijama e continuou a ler alguns capítulos do livro. Trocou palavras com o namorado, imaginando sua presença na cama fria, embaixo do lençol, acariciando seu corpo até o sono aparecer. Ouviu a cantora que só se permitia ouvir quando estava de bem com si mesma e em noites calmas assim.

Como queria mais um sorvete de blueberry e as carícias do namorado embaixo do lençol.

d--b - 1963 - Rachael Yamagata