quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

To the valley below.

Ele acordou, olhou para o lado e viu apenas o travesseiro. Estendeu o braço para pegar sua camisa na cadeira, mas não mais se encontrava lá. E da brecha da porta entreaberta, ouviu o zumbir da chaleira com água fervente. Ao sair do quarto, deparou-se com ela, vestindo sua camisa xadrez de flanela e aquela calcinha azul que chamou sua atenção desde o momento em que a viu vestindo-a. Parou para observá-la passando o café e sentiu o aroma do grão recém moído.

- Te acordei? - Ela perguntou sem tirar os olhos daquela coisa estranha na qual ela fazia o melhor café que já tinha tomado na vida. Talvez não fosse o melhor... Mas era o que ela tinha feito.

- Não. 

- É que eu não estava encontrando a chaleira, daí fiquei procurando e acho que estava fazendo barulho, mas acabou que...

Ele a beijou.

- ... encontrei. - Ela segurou o sorriso. - Seu café. 

- Obrigado, querida. - Tomou um gole e beijou-a. Aquele beijo quente. Doce. - Está muito bom.

Ela sorriu. - 'brigada. Podemos voltar a ficar embaixo do edredom agora?

Ele riu. - Claro.

- Vendo desenho animado? E comendo brownie?

- Podemos.

E debaixo do edredom, ele confortou os pés nas pernas dela, quentes como aquele café na xícara.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quando ele me beija, é natal o tempo todo.

Já estava na rua perto de casa quando viu o céu negro do fim da estrada.

“Vixe, vai cair pé d’água.” - Pensou.

Apressou o passo e virou a esquina quando o vento soprou e trouxe o som de uma vitrola a tocar uma música familiar. Sorriu e parou para vê-la pela janela da cozinha do apartamento, de camisa e calcinha (já tinha avisado a ela que da rua dava pra ver o apartamento, mas ela teimava em não acreditar), dançando com Woody Hermann, o músico de jazz que ela mais gostava de ouvir quando estava cozinhando. Ela havia dito que chegaria cedo do trabalho e que hoje faria o jantar.

Desceu a ladeira, entrou no prédio e lentamente, colocou as chaves no trinco da porta. O som do piano vindo das caixas da vitrola aumentou. Posicionou-se no vão da porta da cozinha, enquanto ela ainda não tinha sentido a presença dele. Ela continuou dançando e cortando as cebolas, tomates e calabresa. Foi quando ele riu. Ela se virou e riu:

“Está aí há quanto tempo? Nem pra vir me ajudar a cortar as coisas... Só fica aí olhando minha bunda e as minhas pernas.”

“São lindas, fazer o quê?”

Ela lavou as mãos. Deixou a faca e as coisas no balcão. Foi quando Frances Wayne começou a cantar Happiness is a Thing Called Joe.

“Dança comigo?”

“Sempre.”


E enquanto o pé d’água caia lá fora, a felicidade dançava naquela cozinha apertada.

P.S. Clica no nome da música para ouvir no youtube :)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ristretto.

Ela sentou na área externa e pediu por um espresso. Não, um ristretto. Ela não estava bem humorada. Ela precisava de um sabor forte na boca. Quando a xícara quente apareceu na mesa, ela pegou o cigarro e viu a fumaça dançar na frente de seus olhos. Café e cigarros. Isso era tudo o que ela precisava. 

- Oi.

Deus. Tudo o que ela queria era ficar um pouco sozinha com seu café e seu cigarro. Ela olhou para cima e o viu. 

- Oi.
- Sozinha?
-Sim.
- Mal humorada?
- Absolutamente.
- Você não quer companhia, né?
- Hm. Bem. Eu não queria. Mas já que você já está aqui, tome uma xícara de café comigo, pode ser?
- Um cappuccino, por favor? - Ele pediu. - Então, o que você está lendo?
- Lygia Fagundes Telles.
- É bom?
- Sim. Olha. Você não quer ir para outro lugar?
- Outro lugar?
- É. Um lugar mais quieto, onde a gente poderia talvez... sei lá... transar. E depois eu poderia nos fazer café e podíamos fumar e falar besteira.
- Ok, eu tenho um lugar.

Café, cigarros e sexo. ISSO era tudo que ela precisava.

sábado, 19 de outubro de 2013

- Continua.

A chuva caia lá fora.
- Continua.
As lágrimas caindo torrencialmente no travesseiro.
Os olhares se cruzaram, profundamente, e continuaram por segundos que pareceram séculos.
Secou-lhes os rios do rosto.
Os raios e trovões cantavam e iluminavam o lençol na janela.
- Continua.



Aquele amor sempre haveria de continuar.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Glup.

A cerveja entrou gelada, rasgando em sua garganta.

- Desisto.
- De quê?
- De tudo.
- Hein?
- É. Tô de saco cheio.
- De quê, menina de deus?
- De tudo, cacete. Quero uma pausa.
- Tivemos um mês de férias.
- E já tivemos um mês de aula.
- Já já acaba.
- O quê?
- A faculdade.
- Mas é disso que eu tenho medo.
- Também.
- Que acabe logo essa TPM então. É a alegria mais próxima que posso ter.
- Calma, fiazinha. Acabemos nossa cervejinha tranquilas ao som de... Como é o nome mesmo?
- Led Zeppelin, vei! E acabar essa cervejinha não é uma alegria. Porque assim que acabar, a vida aparece.
- Tu tá precisando de uma boa fudida.
- Estou. 
- Mas já está com os dias contados.
- Espero.
- Está. Relaxe. Relaxe que já já você goza.
- Obrigada, fiazinha.
- Pelo quê?
- Pelas palavras de amizade.
- De nada. Eu sei que você me diria o mesmo. Ou pior. 

"A minute seems like a lifetime [...] when I feel this way" cantava Robert Plant, enquanto que a cerveja cantava  "glup" em suas gargantas.

sábado, 21 de setembro de 2013

Trânsito.

Um dos grandes males do mundo moderno é o trânsito. Uma pesquisa feita pela USP aponta que há uma perda diária de cerca de 11 milhões de reais com o tempo gasto no trânsito, além do combustível, claro. Nem vamos começar a falar dos problemas de saúde que dizem que o trânsito pode trazer às pessoas. Vai de estresse até disfunção erétil (pois é). Sim, o trânsito é uma coisa chata. Que nos tira a paciência, que nos atrasa, que segue uma proporcionalidade murphyana: quanto menos tempo você tem para chegar em um lugar, maior será o tráfego de carros. Mas devo admitir que de vez em quando, o trânsito, aquele quilométrico, pode ser uma coisa boa. HEIN? É. Às vezes a gente está tão bem consigo mesmo, tão feliz, que cantar junto com a Karina Buhr no volante, sozinha, traz uma tranquilidade imensa. Mesmo com os carros buzinando do lado. Porque você está tão bem que as pessoas estressadas ao lado não influenciam em nada na felicidade sem razão do coração. Ou mesmo quando você está triste. O trânsito e a música aleatória que o rádio começou a tocar podem responder perguntas que você não estava conseguindo resolver há dias, há semanas. Chorar no volante? Sim, pode, qual o problema? Devo dizer: o carro e a fila sem fim de carros a sua frente podem ser até melhores que uma consulta no psicólogo. Pode parecer estranho. Tenho amigos que simplesmente sentem pavor de entrar no carro, dirigir e enfrentar o trânsito. Mas poxa. Ele está lá. E a não ser que você tenha um helicóptero para se locomover, utilize o tempo 'perdido' com você. Pense na vida, cante junto com a Karina Buhr, ouça um nerdcast, planeje o que vai fazer quando chegar em casa: dormir ou assistir aquele filme, aprenda uma língua estrangeira... Sei lá. São tantas coisas que se pode fazer ao esperar seu carro sair do canto que eu me perco. 

E escrevendo esse texto, deu uma vontade de pegar o carro e sair por aí. Parar na Subway, comprar um sanduíche e enfrentar o trânsito na volta pra casa ouvindo Led Zeppelin nas alturas. Com licença, gente. Vou ali sair comigo.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Hoje eu quero sair só.

Não sou fã do Lenine. Às vezes, ouço uma música ou outra desse pernambucano lindo. E hoje, acordei com essa música na cabeça e decidi: Hoje eu quero sair só. Muita gente acha deprimente sair só, como se pra ser feliz é necessário, imprescindível a presença de outra pessoa. Pois eu digo que não. Tá certo, é bom ter uma companhia de vez em quando. Ir no bar com os amigos, ir na casa dos primos e ver filme. Mas devo dizer que sair sozinho é tão importante quanto tomar aquela cerveja com a galera da faculdade na sexta feira. Sim. Saber que você é uma companhia tão boa que assistir aquele filme nacional com você mesmo é um ótimo programa de meio de semana, quando o shopping não está tão cheio e você acha com facilidade um canto na praça de alimentação para tomar café e ler os jornais. A sensação de independência é incrível. Não depender das outras pessoas para decidir que filme assistir ou que horário vai pegar. Se pegar rindo sozinho lendo as leseiras no celular. Ser paquerada na escada rolante enquanto você está descendo e o cara está subindo. Ou ser cantada pelo moço do cinema que viu sua carteira de motorista e disse: "Poxa, mudou mesmo o visual em relação a foto. Tá bem mais bonita agora". Se pegar cantando sozinha enquanto está escolhendo que doce comprar para acompanhar o filme. Ver aquele professor coroa gatão da faculdade com aquela camisa xadrez e rir sozinha se achando idiota. Sair do cinema e ainda tomar um espresso com grão mineiro...

Jobim disse que é impossível ser feliz sozinho. Rapaz, nem sempre, viu? Nem sempre...