domingo, 9 de junho de 2013

Ótimo, meu amor.

Colocou a calcinha e vestiu a camisa dele que estava na cadeira. Pegou o maço de cigarros e tirou da cafeteira a xícara que já esperava por ela. Sentou-se no chão da varanda, acendeu o cigarro e viu os desenhos de fumaça dançarem a sua frente. Ele se levantou da cama e se posicionou na porta:
- Você me ama?
Ela parou. Tomou um gole de café. Tragou o cigarro.
- Claro que não, querido.
Ele sorriu. Roubou o cigarro. Roubou-lhe um beijo. E disse:
- Ótimo, meu amor.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

E que se foda o mundo.

Deitou-se na cama e sentiu o lençol frio tocar-lhe o corpo nu. Precisava ficar sozinha. Sozinha com a Sarah na vitrola e sua grande xícara de café. Porque café é a bebida perfeita. Esteja você triste ou feliz. Depois de meses sentindo apenas o amargor do café, poderia agora bebê-lo sem açúcar e achar a bebida mais doce de todas. Mesmo com as dúvidas que pipocam sempre na sua frente, ela agora poderia dizer que tinha voltado aos trilhos. Estava sozinha. Sim, estava sozinha. Mas a solidão que teve ao não-estar sozinha tinha sumido. Ela agora estava segura de si mesma que poderia ficar sozinha por tempo indeterminado. Mesmo não tendo a confiança que gostaria de ter, sentia-se mais segura com seu corpo e com sua mente. Era uma menina... não. Já era uma mulher. Poxa, já é uma mulher. Uma mulher que não se sente como as outras. É uma mulher que não se importa com o mundo. E isso não é egoísmo, entenda. Ela só quer aproveitar do jeito que acha correto, do jeito que quer que seja, do jeito em que se sente bem consigo e sua alma louca. Sem se importar com o que possam dizer dela. É do tipo que sairia de calcinha e sutiã na rua. Sem vergonha, pois é o jeito que se sente confortável. Gosta de beber, de falar palavrão, de fumar quando está se sentindo bem ou quando quer relaxar. Não é do tipo academia ou maquiagem. Tem preguiça de manter a rotina de base e pó compacto. Prefere os olhos mais escuros.

O que importa é que está bem consigo mesma do jeito que é e sempre foi.


E que se foda o mundo. 

sábado, 13 de abril de 2013

Jogo da Vida.

Às vezes eu acho que as coisas seriam bem mais fáceis se eu me matasse. Isso não é uma carta suicida. Não. Eu não vou me matar. Mas é que de vez em quando, eu tenho esperança que a vida seja que nem aquelas de videogames. Eu morro e depois volto ao começo. Ou volta a uma parte segura. Mas a vida, como vocês bem sabem, caros amigos, não é assim. A vida de verdade. De carne e osso. Não vem com manual de instrução como aquele Jogo da Vida. Ou com uma versão demo (não de demônio, a forma demo, demonstração). Acontece que em alguns momentos, eu queria uma dica. Uma dica que desse em algo bom. Uma carta de sorte. Porque às vezes, parece que só vem carta de revés. Armadilha após armadilha. É quase como aquele jogo, Limbo. Parece que tudo está nas trevas e você não consegue ver onde pisa e o que te espera. Ou Campo Minado, quando você acha que encontrou um ponto tranquilo pra clicar e daí BAAAAAAAAM. Fico pensando: seria legal perder a vida de vez em quando, ganhar outra, começar. Ou melhor, recomeçar de um ponto firme; comer um cogumelo e melhorar de vida, ficar mais forte, ou até mesmo parar quando se sentir cansado. Mas não há como. Não há pausa, mas apenas o certo game over. O que nos resta então, é jogar a Paciência.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Mas eu não sou apaixonada por você, cara.

- Posso falar com você? - Baixou a voz - Em particular?
Ela estranhou, mas afirmou com a cabeça. Ao se afastarem das que pessoas que conversavam alto na área de lazer do prédio, ela decidiu perguntar logo.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. É só que eu tenho que te falar uma coisa.
- Ahm, ok. Então fala.
- Como eu vou falar isso?
Ela o encarou sem entender o que porra estava acontecendo.
- Bem - ele começou - é que eu soube que você tem sentimentos por mim e eu tenho que te avisar - ela tentou interrompê-lo, mas ele continuou - Não precisa ficar com vergonha. Eu sei, isso acontece, a pessoa se apaixonar pelo chefe, mas é complicado isso. Sinto muito, mas não dá, não quero te magoar. - Ele sorriu.
- Ahm.
- Você é uma garota muito legal, inteligente, bonita, se eu pudesse com certeza te chamaria para sair. Mas...
- Mas eu não sou, nem estou apaixonada por você, cara. 
- Quê? - O sorriso sumiu de seus lábios. Na verdade, continuou, mas para disfarçar a surpresa.
- Eu não sei quem te falou tudo isso, mas eu não sinto isso por você. O que eu sinto por você é uma coisa completamente diferente de amor. Eu só sinto tesão por você. Tara. Sabe?
- Quê?
- Ahm. É... Desculpa ser tão direta assim, mas é a verdade. Como você mesmo diz, sou kantiana né?
- É, claro. Mas, ahm.
- Cara, eu só penso em transar com você. Só isso. Nada mais. Não se preocupe que eu não te amo, ok?
- Ok.
- Não era isso que você pensava ouvir de mim né? Mas poxa, cara. Você preenche todos os requisitos. Ou quase todos: é mais velho, tem barba, é meio galinha, é gostoso, é inteligente, é legal... Já tem até filho. Perfeito pra ser o tipo buddy call.
- Estou me sentindo meio usado, mas tudo bem.
- Eu nem te usei ainda, cara, relaxa. Vixe.
- Por que eu ter um filho já ajuda?
- Porque, oras. Não é daqueles caras que fica conversando sobre ter filhos futuramente, já tem um, pra quê mais?
- Hm. E como assim eu sou galinha? E como isso te ajuda?
- Cara, vai negar que tu é galinha?
Ele deu de ombros. Ela continuou.
- E ainda, repito, só quero sexo. Fuck. Quem sabe cinema às vezes. Ou jantar. Mas qualquer coisa que dê na cama.
- Estou me sentindo usado.
- Cara, relaxa. Você é como o irmão bastardo do príncipe encantado.
- Hein?
- Você é o irmão mais bonito, mais gostoso, mais pegador, que come todas as princesas do continente, mas não é o cara pra casar, sabe? Daí a princesa transa contigo, mas casa com o príncipe, porque ele sim é um cara pra se casar, mais responsável e que come bem pra vida de casado e que vai amar a princesa como uma verdadeira rainha.
- Então quer dizer que eu não sou o príncipe encantado?
- Cara, que isso... Você pode ser pra alguém, mas eu não quero nada disso com você. Quero seu lado Lancelot, não Arthur.
- Pois procure outro, porque eu não sou Lancelot ou um boneco pra você usar a hora que quer. - E saiu indignado, marchando prédio acima.
- Danosse. Além de filho bastardo é viado.

domingo, 17 de março de 2013

Cigarros e café.

- Quer um cigarro?
- Você fuma?
- Não. Só de vez em quando.
- Aceito.
- Você fuma?
- Só de vez em quando.
- O café está pronto. Aqui.
- Obrigada.
- Açúcar ou adoçante?
- Nenhum dos dois.
- Você toma puro?
- Quero provar o grão.
- Hm.... É bom?
- Heh. Para um café de cápsula... Prefiro o café coado mesmo.
- Também. Da próxima vez você prepara.
- Haverá uma próxima?
- Por que não?
- Não sei.
- Você não gostou?
- Não é isso.
- E é o quê?
- Não sei.
- Foi estranho?
- Não. Foi bom. É só que... Nada. Foi muito bom pra falar a verdade. Próxima vez eu faço o café.

terça-feira, 12 de março de 2013

Antes de dormir.

Sempre achei que o momento antes de ir dormir fosse o mais difícil. Porque mesmo que você esteja com muito sono, com o corpo demandando descanso, a sua mente pode estar funcionando a mil. Pode estar andando em pensamentos sem parar, como um carrossel ou mesmo como um tubarão. Porque você sabe né? Tubarões não param de nadar senão afundam. Pois é exatamente como a mente antes de dormir. Você tem até um livro de cabeceira, mas o que você queria mesmo era pregar os olhos e se entregar àquele sonho com o Thorin do Hobbit. Ou que está preso nas Lojas Americanas comendo todos os doces e brincando com todas aquelas imagens de ação. Mas não.

Daí você lembra a quantidade de coisas que tem que fazer no dia seguinte. E no outro. E no outro. E no outro.

E no outro.

E você perde o sono de vez para dar lugar ao desespero. Por que você está deitada na cama, enroladinha no lençol enquanto há quatro provas batendo fortemente em sua porta? Um projeto a ser escrito? Textos a serem lidos e fichados? 

É tanta coisa a se fazer que só de pensar, você cansa. 

Cansa tanto que o sono chegou. E o sono chegou com tanta força que a coragem que você tinha de guardar o caderno que você está escrevendo essa nota foi embora. 

Fica no chão mesmo, caderno. Amanhã eu te guardo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

My kind of trouble is Fitzgerald on a vinyl.


- Comprei um disco da Ella Fitzgerald... Perfeito. Todas as vezes que escuto, penso que sou uma personagem de um filme que se passa em Nova Iorque. E que estou prestes a me apaixonar e ter o emprego dos meus sonhos. E que tudo vai dar certo.
- Você quer dizer disco de vinil ou CD?
- Disco de vinil.
- Sério, não entendo ainda essa história de que disco de vinil é melhor que cd. Se o disco é melhor que o cd, por que ele parou de ser fabricado?
- Ele não parou de ser fabricado. Ele só diminuiu a produção. Junto com a produção de música de qualidade.
- Não não... Não entendo isso não. É você e minha irmã que ficam falando disso.
- Sua irmã deve ser uma pessoa bem legal. Gostaria de conhecê-la. Enfim, cara. Já até te mandei um link explicando o porquê da melhor qualidade. E não é só isso, a questão da qualidade sabe? É o ter discos. Ter aquelas prateleiras cheias; tirar o vinil da capa com cuidado, ver a agulha cantando Fitzgerald, Vaughan... Jazz numa vitrola é uma coisa totalmente diferente.
- Isso é coisa hipster, hipster.
- Bem, se se sentir bem tomando um bom café, ouvindo jazz na vitrola, com uma boa companhia é ser hipster... Bem... Sou hipster com muito prazer desde 2006.
Ele sorriu. – Como diz a Fitzgerald, my kind of trouble is you.