domingo, 8 de junho de 2014

Shame.

Bebeu metade do vinho, derrubou um pouco do que restara na garrafa e encheu a taça com as últimas gotas do vinho chileno que ganhara dele.
Depois de ter assistido a série que tanto gostava, bebeu o resto do líquido roxo de calcinha e sutiã no sofá.
Estava pensando. O que estava acontecendo com sua vida?
Só tinha certeza de uma coisa: não sabia mais de nada.
Por toda sua vida, teve certeza das coisas. Mas agora, a única certeza que tinha, era que aquela taça, a sua frente, acabaria em alguns minutos.
Era verdade: gostaria de transar agora.  Mas tinha mais vontade de estar sozinha.
Porque era assim que se sentia nos últimos anos.
Apesar de tudo, estava sozinha. E só tomou conta disso nos últimos meses.
Estava sendo idiota? Não sabia.
Estava sendo paciente demais e deixando sua vida escorrer de suas mãos? Não sabia, mesmo se inclinando para a resposta afirmativa.
Nunca mais tinha se sentido desejada até receber o email de um desconhecido dizendo que gostaria de transar com ela.
Sim. Por mais estranho que isso tenha sido, ela tinha se sentido especial. De um jeito que há tempos não se sentia.
‘We’re not bad people’.
Acabou a garrafa de vinho.
Deitou na cama.
Chorou.
Dormiu esperando um novo dia.

Um dia. Mais um dia.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Lady Grey.

Ela segurou o choro todo o caminho. Diante do céu nublado, seus olhos estavam em igual situação: escondendo, em pesadas nuvens, uma tempestade. Desceu no ponto. Sempre tinha dúvidas de quando puxar a cordinha. Desceu. Atravessou a rua correndo, sem nem olhar pros lados. Quase foi atropelada. Não estava sentindo nada. Entrou no prédio, aguardou o aval do porteiro para subir.
- 505, por favor.
Entrou no elevador e ao ficar sozinha naquele cubículo, se vendo no espelho, a garganta já começava a fechar, aquela agonia que se sente antes do desespero. A porta abriu, saiu e ao olhar pro lado ele estava lá, sorrindo. Correu e o abraçou. E foi quando toda aquela tempestade dentro da alma caiu pelos olhos, soluçando, como uma comporta d’água que se abre.
- Vai ficar tudo bem.
- Não, não vai.
- Claro que vai. Por que não ficaria?
- Porque eu não mereço.
- Quem disse que você não merece?
- Eu. Eu não mereço tudo isso.
- E por que não? Deixe de pensar isso. Aconteceu. Não há como ter controle de tudo.
- Por que não? Por que eu não posso ter controle das coisas?
- É a vida. Não há como ter certeza de tudo.
- Tudo parece estar tão distante. Nada, nada está ao meu alcance. Nada.
- Algumas coisas estão.
- Como o quê?
- A vontade e a coragem de mudar.
Ela parou. E ele continuou:
- E meu beijo e uma xícara de chá.
Ela sorriu, com aqueles olhos grandes de tanto ter chorado.
- Lady Grey? Com leite? – Ele perguntou.

- Sim, mas sem leite e com limão – ela respondeu sentindo toda a tempestade esvair-se de seu corpo por estar ali com ele. Sorriu, como nunca mais tinha sorrido antes. Estava segura.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

To the valley below.

Ele acordou, olhou para o lado e viu apenas o travesseiro. Estendeu o braço para pegar sua camisa na cadeira, mas não mais se encontrava lá. E da brecha da porta entreaberta, ouviu o zumbir da chaleira com água fervente. Ao sair do quarto, deparou-se com ela, vestindo sua camisa xadrez de flanela e aquela calcinha azul que chamou sua atenção desde o momento em que a viu vestindo-a. Parou para observá-la passando o café e sentiu o aroma do grão recém moído.

- Te acordei? - Ela perguntou sem tirar os olhos daquela coisa estranha na qual ela fazia o melhor café que já tinha tomado na vida. Talvez não fosse o melhor... Mas era o que ela tinha feito.

- Não. 

- É que eu não estava encontrando a chaleira, daí fiquei procurando e acho que estava fazendo barulho, mas acabou que...

Ele a beijou.

- ... encontrei. - Ela segurou o sorriso. - Seu café. 

- Obrigado, querida. - Tomou um gole e beijou-a. Aquele beijo quente. Doce. - Está muito bom.

Ela sorriu. - 'brigada. Podemos voltar a ficar embaixo do edredom agora?

Ele riu. - Claro.

- Vendo desenho animado? E comendo brownie?

- Podemos.

E debaixo do edredom, ele confortou os pés nas pernas dela, quentes como aquele café na xícara.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quando ele me beija, é natal o tempo todo.

Já estava na rua perto de casa quando viu o céu negro do fim da estrada.

“Vixe, vai cair pé d’água.” - Pensou.

Apressou o passo e virou a esquina quando o vento soprou e trouxe o som de uma vitrola a tocar uma música familiar. Sorriu e parou para vê-la pela janela da cozinha do apartamento, de camisa e calcinha (já tinha avisado a ela que da rua dava pra ver o apartamento, mas ela teimava em não acreditar), dançando com Woody Hermann, o músico de jazz que ela mais gostava de ouvir quando estava cozinhando. Ela havia dito que chegaria cedo do trabalho e que hoje faria o jantar.

Desceu a ladeira, entrou no prédio e lentamente, colocou as chaves no trinco da porta. O som do piano vindo das caixas da vitrola aumentou. Posicionou-se no vão da porta da cozinha, enquanto ela ainda não tinha sentido a presença dele. Ela continuou dançando e cortando as cebolas, tomates e calabresa. Foi quando ele riu. Ela se virou e riu:

“Está aí há quanto tempo? Nem pra vir me ajudar a cortar as coisas... Só fica aí olhando minha bunda e as minhas pernas.”

“São lindas, fazer o quê?”

Ela lavou as mãos. Deixou a faca e as coisas no balcão. Foi quando Frances Wayne começou a cantar Happiness is a Thing Called Joe.

“Dança comigo?”

“Sempre.”


E enquanto o pé d’água caia lá fora, a felicidade dançava naquela cozinha apertada.

P.S. Clica no nome da música para ouvir no youtube :)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ristretto.

Ela sentou na área externa e pediu por um espresso. Não, um ristretto. Ela não estava bem humorada. Ela precisava de um sabor forte na boca. Quando a xícara quente apareceu na mesa, ela pegou o cigarro e viu a fumaça dançar na frente de seus olhos. Café e cigarros. Isso era tudo o que ela precisava. 

- Oi.

Deus. Tudo o que ela queria era ficar um pouco sozinha com seu café e seu cigarro. Ela olhou para cima e o viu. 

- Oi.
- Sozinha?
-Sim.
- Mal humorada?
- Absolutamente.
- Você não quer companhia, né?
- Hm. Bem. Eu não queria. Mas já que você já está aqui, tome uma xícara de café comigo, pode ser?
- Um cappuccino, por favor? - Ele pediu. - Então, o que você está lendo?
- Lygia Fagundes Telles.
- É bom?
- Sim. Olha. Você não quer ir para outro lugar?
- Outro lugar?
- É. Um lugar mais quieto, onde a gente poderia talvez... sei lá... transar. E depois eu poderia nos fazer café e podíamos fumar e falar besteira.
- Ok, eu tenho um lugar.

Café, cigarros e sexo. ISSO era tudo que ela precisava.

sábado, 19 de outubro de 2013

- Continua.

A chuva caia lá fora.
- Continua.
As lágrimas caindo torrencialmente no travesseiro.
Os olhares se cruzaram, profundamente, e continuaram por segundos que pareceram séculos.
Secou-lhes os rios do rosto.
Os raios e trovões cantavam e iluminavam o lençol na janela.
- Continua.



Aquele amor sempre haveria de continuar.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Glup.

A cerveja entrou gelada, rasgando em sua garganta.

- Desisto.
- De quê?
- De tudo.
- Hein?
- É. Tô de saco cheio.
- De quê, menina de deus?
- De tudo, cacete. Quero uma pausa.
- Tivemos um mês de férias.
- E já tivemos um mês de aula.
- Já já acaba.
- O quê?
- A faculdade.
- Mas é disso que eu tenho medo.
- Também.
- Que acabe logo essa TPM então. É a alegria mais próxima que posso ter.
- Calma, fiazinha. Acabemos nossa cervejinha tranquilas ao som de... Como é o nome mesmo?
- Led Zeppelin, vei! E acabar essa cervejinha não é uma alegria. Porque assim que acabar, a vida aparece.
- Tu tá precisando de uma boa fudida.
- Estou. 
- Mas já está com os dias contados.
- Espero.
- Está. Relaxe. Relaxe que já já você goza.
- Obrigada, fiazinha.
- Pelo quê?
- Pelas palavras de amizade.
- De nada. Eu sei que você me diria o mesmo. Ou pior. 

"A minute seems like a lifetime [...] when I feel this way" cantava Robert Plant, enquanto que a cerveja cantava  "glup" em suas gargantas.