Hoje, acidentalmente, peguei seu perfume, aquele que você esqueceu aqui em casa, para matar uma mosca.
Ela fugiu, mas teu cheiro incensou o quarto.
Mandei uma mensagem de oi no celular, você não respondeu, mas tudo bem.
Faz tempo que você não responde.
Faz tempo que a gente não conversa e faz tempo que eu não te vejo.
Mas faz alguns dias que eu percebi que - finalmente - está tudo em seu devido lugar.
Te mandei uma carta - ora, mas que demodê - junto com um convite. Disse que estava tudo bem e que esperava o mesmo pra ti.
"A maldade do tempo me fez me afastar de você".
A maldade da vida nos fez nos afastar.
Mas - pelo tanto que sofremos - está tudo bem.
Finalmente. Está tudo bem.
Teu cheiro engarrafado não dói mais.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Sabonete Senador.
Tocou
a campanhia já imaginando que ele estivesse dormindo.
PRÊÊM.
Tocou
mais uma vez.
PRÊÊM.
Foi
quando ouviu um ruído e passos se dirigindo até a porta. Ele surgiu pela fresta
aberta com o olhar sonolento.
-
Amor...!
Ela
entrou, abraçou-o e não soltou mais.
-
O que houve?
-
Nada. – Ela respondeu, segurando o choro na garganta.
-
Estou preocupado.
Ela
permaneceu calada, querendo sentir apenas seu corpo agarrado ao dele para
pensar estar mais segura. Mas como estar mais segura se todos os problemas que
estava sentindo se originavam exatamente de sua mente?
-
Vem, vou escovar os dentes e você me fala o que foi.
No
caminho para o banheiro, ela foi contando e chorando. Mais uma vez, ele tentou
acalmá-la de tudo aquilo. Ela sabia que poderia estar exagerando. Mas por que
sentia que não? Abraçou-o mais uma vez e a cada aperto, o choro parecia
aumentar. Estava soluçando, inconsolável.
-
Vamos fazer assim: a gente toma um banho junto e vamos almoçar. Que tal?
E
quando ele tentou desabotoar sua blusa, ela voltou ao choro incontrolável.
Creio que foram 30 minutos para tentar acalmá-la e tirar sua roupa. Abraçou-a
novamente, só que dessa vez debaixo do chuveiro. 5 segundos depois, ela
desligou e disse:
-
Está faltando água em São Paulo.
Ele
sorriu e ela voltou a chorar. O dia de apenas seis horas havia sido difícil,
ainda teria de trabalhar e seus hormônios militantes da TPM estavam mais
fervorosos que os eleitores do PSDB e PT em brigas nas ruas nas últimas
semanas. Mas, por alguma razão, não sabia a qual, e apesar da angústia no
coração, ela sabia que ele estava certo. Tudo estava bem.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Réquiem.
Quando
estava triste, gostava de dirigir.
Mas
naquela noite, além da tristeza, havia medo. Medo do que poderia acontecer, do
que estava por vir.
Depois
de tomar uma garrafa de vinho, chorando aos prantos na areia da praia, colocou
Mozart no som do carro.
Sabia
que a vida era feita de decisões. De erros. E aquilo estava a matando por
dentro. Todos os passos em falso. Todas as dúvidas.
Não
sabia que aquela sinfonia havia sido escrita no leito de morte do músico
austríaco.
Também
não sabia que ao dirigir por mais de 120km/h, com aquela sinfonia alta a
invadir seus ouvidos, o seu leito de morte já havia sido construído. Colidiu
com o poste. Morreu na hora.
Disseram
que quando tiraram o corpo do que restou do carro, seus olhos inchados de tanto
choro, aparentavam finalmente, a paz que ela queria em vida.
domingo, 8 de junho de 2014
Shame.
Bebeu
metade do vinho, derrubou um pouco do que restara na garrafa e encheu a taça
com as últimas gotas do vinho chileno que ganhara dele.
Depois
de ter assistido a série que tanto gostava, bebeu o resto do líquido roxo de
calcinha e sutiã no sofá.
Estava
pensando. O que estava acontecendo com sua vida?
Só
tinha certeza de uma coisa: não sabia mais de nada.
Por
toda sua vida, teve certeza das coisas. Mas agora, a única certeza que tinha,
era que aquela taça, a sua frente, acabaria em alguns minutos.
Era
verdade: gostaria de transar agora. Mas
tinha mais vontade de estar sozinha.
Porque
era assim que se sentia nos últimos anos.
Apesar
de tudo, estava sozinha. E só tomou conta disso nos últimos meses.
Estava
sendo idiota? Não sabia.
Estava
sendo paciente demais e deixando sua vida escorrer de suas mãos? Não sabia,
mesmo se inclinando para a resposta afirmativa.
Nunca
mais tinha se sentido desejada até receber o email de um desconhecido dizendo
que gostaria de transar com ela.
Sim.
Por mais estranho que isso tenha sido, ela tinha se sentido especial. De um
jeito que há tempos não se sentia.
‘We’re
not bad people’.
Acabou
a garrafa de vinho.
Deitou
na cama.
Chorou.
Dormiu
esperando um novo dia.
Um
dia. Mais um dia.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Lady Grey.
Ela
segurou o choro todo o caminho. Diante do céu nublado, seus olhos estavam em
igual situação: escondendo, em pesadas nuvens, uma tempestade. Desceu no ponto.
Sempre tinha dúvidas de quando puxar a cordinha. Desceu. Atravessou a rua
correndo, sem nem olhar pros lados. Quase foi atropelada. Não estava sentindo
nada. Entrou no prédio, aguardou o aval do porteiro para subir.
-
505, por favor.
Entrou
no elevador e ao ficar sozinha naquele cubículo, se vendo no espelho, a
garganta já começava a fechar, aquela agonia que se sente antes do desespero. A
porta abriu, saiu e ao olhar pro lado ele estava lá, sorrindo. Correu e o abraçou.
E foi quando toda aquela tempestade dentro da alma caiu pelos olhos, soluçando,
como uma comporta d’água que se abre.
-
Vai ficar tudo bem.
-
Não, não vai.
-
Claro que vai. Por que não ficaria?
-
Porque eu não mereço.
-
Quem disse que você não merece?
-
Eu. Eu não mereço tudo isso.
-
E por que não? Deixe de pensar isso. Aconteceu. Não há como ter controle de
tudo.
-
Por que não? Por que eu não posso ter controle das coisas?
-
É a vida. Não há como ter certeza de tudo.
-
Tudo parece estar tão distante. Nada, nada está ao meu alcance. Nada.
-
Algumas coisas estão.
-
Como o quê?
-
A vontade e a coragem de mudar.
Ela
parou. E ele continuou:
-
E meu beijo e uma xícara de chá.
Ela
sorriu, com aqueles olhos grandes de tanto ter chorado.
-
Lady Grey? Com leite? – Ele perguntou.
-
Sim, mas sem leite e com limão – ela respondeu sentindo toda a tempestade
esvair-se de seu corpo por estar ali com ele. Sorriu, como nunca mais tinha
sorrido antes. Estava segura.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
To the valley below.
Ele acordou, olhou para o lado e viu apenas o travesseiro. Estendeu o braço para pegar sua camisa na cadeira, mas não mais se encontrava lá. E da brecha da porta entreaberta, ouviu o zumbir da chaleira com água fervente. Ao sair do quarto, deparou-se com ela, vestindo sua camisa xadrez de flanela e aquela calcinha azul que chamou sua atenção desde o momento em que a viu vestindo-a. Parou para observá-la passando o café e sentiu o aroma do grão recém moído.
- Te acordei? - Ela perguntou sem tirar os olhos daquela coisa estranha na qual ela fazia o melhor café que já tinha tomado na vida. Talvez não fosse o melhor... Mas era o que ela tinha feito.
- Não.
- É que eu não estava encontrando a chaleira, daí fiquei procurando e acho que estava fazendo barulho, mas acabou que...
Ele a beijou.
- ... encontrei. - Ela segurou o sorriso. - Seu café.
- Obrigado, querida. - Tomou um gole e beijou-a. Aquele beijo quente. Doce. - Está muito bom.
Ela sorriu. - 'brigada. Podemos voltar a ficar embaixo do edredom agora?
Ele riu. - Claro.
- Vendo desenho animado? E comendo brownie?
- Podemos.
E debaixo do edredom, ele confortou os pés nas pernas dela, quentes como aquele café na xícara.
- Vendo desenho animado? E comendo brownie?
- Podemos.
E debaixo do edredom, ele confortou os pés nas pernas dela, quentes como aquele café na xícara.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Quando ele me beija, é natal o tempo todo.
Já
estava na rua perto de casa quando viu o céu negro do fim da estrada.
“Vixe,
vai cair pé d’água.” - Pensou.
Apressou
o passo e virou a esquina quando o vento soprou e trouxe o som de uma vitrola a
tocar uma música familiar. Sorriu e parou para vê-la pela janela da cozinha do
apartamento, de camisa e calcinha (já tinha avisado a ela que da rua dava pra
ver o apartamento, mas ela teimava em não acreditar), dançando com Woody
Hermann, o músico de jazz que ela mais gostava de ouvir quando estava
cozinhando. Ela havia dito que chegaria cedo do trabalho e que hoje faria o
jantar.
Desceu
a ladeira, entrou no prédio e lentamente, colocou as chaves no trinco da porta.
O som do piano vindo das caixas da vitrola aumentou. Posicionou-se no vão da
porta da cozinha, enquanto ela ainda não tinha sentido a presença dele. Ela
continuou dançando e cortando as cebolas, tomates e calabresa. Foi quando ele
riu. Ela se virou e riu:
“Está
aí há quanto tempo? Nem pra vir me ajudar a cortar as coisas... Só fica aí
olhando minha bunda e as minhas pernas.”
“São
lindas, fazer o quê?”
Ela
lavou as mãos. Deixou a faca e as coisas no balcão. Foi quando Frances
Wayne começou a cantar Happiness is a Thing Called Joe.
“Dança
comigo?”
“Sempre.”
E
enquanto o pé d’água caia lá fora, a felicidade dançava naquela cozinha
apertada.
P.S. Clica no nome da música para ouvir no youtube :)
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